Normalmente não me apetece muito escrever estes relatos, mesmo quando estou a falar de um mergulho dos
inesquecíveis, que nem foi o caso do mergulho de quinta á noite, e apesar de quase todos os mergulhos terem, nem que seja, uns segundos mágicos. E nisso o de quinta teve, não uns segundos, mas muitos e muitos minutos no meio daqueles setenta que por lá andámos. Mas uma coisa é certa, sabe-me bem ler sobre um determinado mergulho, e principalmente quando eu fiz parte dele.
Quinta á noite reeditamos um nosso clássico, os nocturnos na praia de Sesimbra. Esses famosos mergulhos que muitos de
vocês já conheciam, e que ainda na passada semana o meu amigo e nosso companheiro de mergulhos o Nuno Santos, me
perguntava -olha lá
Tz, para quando o regresso aqueles fantásticos
mergulhões da praia?....e isto acabados de vir de um
inolvidável "
River by night". E assim foi, após três anos de interregno, decidimos voltar.
Alias já o
tínhamos decidido há uns meses, mas decidimos esperar a passagem do verão e a confusão própria dessa altura do ano. Deverão estar todos a perguntar -então mas se esses mergulhos eram assim tão
fáceis e espectaculares, porque raio estiveram três anos sem o fazer?!?....É certo, mas como sabem a marginal de Sesimbra sofreu profundas alterações. Está mais
agradável, mais bonita, mais
apetecível, para passear, namorar, ou apenas
contemplar um mar
único, emoldurado com a mais bonita baía do país. Sim, sou
faccioso, mas
também sou eu que escrevo, por isso, têm que me aturar...Ou não. Podem sempre mudar de site. Mas isto tudo para dizer que o local por nós utilizado tantos e tantos anos para mergulhar, já era. Não temos acesso com as viaturas e, apesar de a rampa de acesso ao mar ainda lá estar, é
impensável transportar toda a nossa "tralha" quinhentos metros ou mais com subidas e descidas á mistura, o que me levou a pensar em alternativas. E ainda cheguei a pensar que não havia, pois a mais
notória e
viável seria a rampa do Hotel do Mar, tem parque de estacionamento e apesar de mais longe do plano de agua já a
tínhamos utilizado anteriormente e era
praticável. Mas, e há sempre um mas, novo Capitão de Porto novas medidas (atenção que não sei se esta decisão foi da autoria do Sr. Capitão do Porto).O porto de Sesimbra agora estende-se desde a fortaleza da praia até ao limite do molhe "novo", ficando a rampa dentro da nova
area do porto. Estava portanto eliminada essa possibilidade. E quando parecia que já não restavam alternativas, descobrimos uma que esteve sempre á frente dos nossos olhos....A bela fortaleza de Santiago,
mandada construir por Dom João IV entre 1640 e 1648, com um acesso
privilegiado ao mar e em frente da qual está a melhor
area para mergulho. Bem, e com tão longa introdução já é hora de passar á acção.
Deveriam ser por volta das nove, nove e meia quando entrámos na agua. Após muita conversa e boa disposição, desta vez montámos tudo na loja da Cotovia e fomos para baixo quase prontos, bastou-nos vestir os
fatos,( e a alguns nem isso, já tinham saído da loja
prontinhos e bem vestidos), descer a rampa, somar meia
dúzia de passos pela areia compactada, entrar na agua de colete cheio, calçar as barbatanas, nadar duas
dúzias de metros e descer, entrar naquele
mundinho de sensações
únicas que nós tão bem conhecemos.
Iniciámos os nossos setenta minutos de imenso gozo, com uma natação por um fundo arenoso com poucos sinais de vida, e muito pouca profundidade. Lá fomos até atingir a zona onde tudo se começaria a passar. Nesta primeira fase notamos bem a entrada do mar de sul, com a ondulação e a agua já meia esverdeada, o contrário da manhã do mesmo dia, onde era lusa como vidro.

Foi aí, já muito próximo da zona rochosa/argilosa que algo me chamou a atenção de uma forma muito particular. Detectei uma zona daquelas em que o mar deposita tudo aquilo que não faz parte dele,
lixarada portanto. Obviamente que
rapidamente comecei a dar mais atenção pois estes locais já anteriormente me tinham dado algumas recompensas. Talvez por passar anos e anos a recolher lixo que encontro debaixo
dagua, e nem um minuto tinha passado, e já estava a ver um papelinho vermelho enrolado que nós tão conhecemos, uma bela
notinha de 10 euros, que algum incauto banhista deixou escapar dos calções de banho, Era um bom prenuncio! Ainda estava a guardar a nota quando reparo na cara de "enjoo" dos meus colegas, que deveriam estar a pensar...o que é que este maluco faz ali naquele monte de lixo. Vamos embora! E lá tive que abandonar aquilo que poderia ser um enorme tesouro. Eh eh eh! Mas não creio que haja banhistas com rolos de notas de quinhentos euros nos bolsos dos calções, pelo menos na praia de Sesimbra! Voltei, e como não estava conformado ainda deitei mais uma vez o olho, para logo recuperar uma moeda bicolor...eram 100 escudos! O pessoal continuava sem querer saber das minhas recolhas, e
também não era essa a minha função. Retomei o rumo sul em busca de outras atracções.

Primeira
avistamento digno de registo, um grande
charroco, grande azafama em torno do animal, que não conseguiu escapar
incólome. Levou com um bom par de
flashadas em cima! A esta hora deve estar no oftalmologista a tratar das cataratas =) . A
partir daí não mais parou o desfile, um linguado grande foi o protagonista seguinte, seguido de outro
charroco e mais uns
polvinhos miniatura super activos. Depois uma grande raia, e mais um
charroco, uns micro camarões laranja-vivo, umas
safias e
sargos á mistura, tudo juvenis, e mais um ou outro pequeno polvo. Mais uma raia, desta vez mais pequena, e um ou dois
charrocos. Este deve ter sido o dia da concentração anual =). Com tudo isto já era hora de voltar. Foi aí que o Nuno e a Ana Sousa se aproximam de mim, e eu me recordei do que ela me tinha falado quando eu fazia o
briefing....é que ela tinha lido aqui neste blog o anuncio do mergulho, e não se esqueceu dos cavalos marinhos....
Estáva "frito"! Tinha de encontrar um cavalo marinho para ela!
Fiz-lhe sinal para me seguirem e esqueci tudo o resto e concentrei-me em todos aqueles pequenos tufos de alga, ao mesmo tempo que rumava a terra. Não tinha tempo a perder! Ainda mal
tínhamos percorrido uma dezena de metros, e tem de ser aqui, é este um tipos de alga que eles preferem, quando não são cabos velhos ou
pita de pesca. E lá estava! tinha-me safado! Lá estava um
pequeníssimo e maravilhoso exemplar de cavalo marinho, de uma
espécie e dimensão que não me recordava de alguma vez ter visto. Era vermelho e
cheíssimo de
preturberancias, tanto ou tão pouco que a Ana ainda ali esteve a olhar sem nada conseguir vislumbrar. Foi só quando pus a mão por baixo do cavalo marinho que ela conseguiu ver a sua
fantástica forma "recortada" contra a palma branca da minha mão. Missão cumprida! Era hora de regressar á praia. Toda a gente
felicíssima. O grupo do
Alex também em
delírio total pois, para alem de uma serie de
espécies e
também terem avistado outras duas raias, descobriram um exemplar, por eles designado de pré-
histórico de
rodovalho, com um
diâmetro superior a setenta
centímetros. Fiquei com pena, pois nunca vi um exemplar desses livre na natureza. Enfim, são estes momentos que nos fazem voltar e voltar, vezes e vezes sem conta. Somos uns
privilegiados por poder
contemplar aquilo que ainda resta da natureza com a sua multiplicidade de formas e seres.....
bye. Até á próxima, que esperemos seja em breve.
TzNota: As fotos utilizadas para ilustrar este post, foram tiradas num outro nocturno feito por nós, e representam um exemplar da mesma especie avistáda neste mergulho,e são da autoria de Claudio Dias. O nosso fotografo de serviço ( Carlos Monteiro) infelizmente devido á utilização de uma nova lente, não conseguiu obter bons registos, daí a utilização destas.